Índios no Brasil: história, sociedade e cultura


Prof.º Leonardo Castro



Às vésperas da chegada dos europeus, a América abrigava uma população estimada entre 80 e 100 milhões de habitantes. Desse total, cerca de 30 milhões estariam na América do Sul, com a maior parte concentrada na região andina.


Índios no Brasil e na Bacia Amazônica, em 1500.

Para a área do atual território brasileiro, as estimativas mais aceitas indicam uma população entre 3 e 6 milhões de habitantes no momento da chegada dos portugueses. Avalia-se que essa população era constituída por cerca de 1 500 grupos étnicos distintos. Tais grupos estavam agrupadas em quatro grande troncos distribuídos por três regiões geográficas: tupi-guarani (populações litorâneas, inclusive na Amazônia), macro-jê (cerrados do interior), aruaque e caribe (Amazônia).


De toda essa população nativa original, restam atualmente cerca de 300 mil índios, constituindo 200 etnias com 170 línguas diferentes.


Os habitantes da América pré-colombiana não são naturais do continente, são alóctones. O provável caminho percorrido por esses homens, originários da Ásia, em direção à América foi o que passa pelo estreito de Bering, nordeste da Ásia. Mas há outras possibilidades, como a travessia do Pacífico usando-se as ilhas existentes entre a Ásia e a América do Sul.




Texto e Contexto

A história indígena é cheia de enganos e incompreensões, a começar pelo vocabulário.

  • Índio: A palavra índio deriva do engano de Colombo que julgara ter encontrado as Índias, em 1492.
  • Gentio: O coletivo gentio foi utilizado pelos jesuítas. O vocábulo gentio ou pagão passou a significar o oposto de cristão;
  • Negros da terra ou negros brasis: Duas expressões utilizadas pelos grupos escravocratas para designar genericamente os índios e diferenciá-los dos negros da Guiné, outro termo genérico usado, no caso, para os africanos;
  • Tupis (ou Tupinambá) designava os povos, pela semelhança de língua e costumes, do litoral no século XVI e considerados amigos.
  • Tapuias eram os “outros” grupos considerados hostis e que não falavam a “língua geral”.



Caçadores, pescadores e coletores nômades por milhares de anos, os índios começaram a desenvolver, a partir de 7 000 a.C., a agricultura, a criação de pequenos animais, a cerâmica, a cestaria e a tecelagem. Tais atividades foram a base material da formação de grupos sedentários da América.


Pesquisas atuais demonstram que, ao contrário da visão construída durante séculos de dominação, a palavra “índio” não representa uma realidade única, geral e uniforme. Por trás dela existe, na verdade, uma pluralidade de formas de organização, hábitos e de relações sociais.


A história do povo brasileiro de fato não começou com a chegada dos portugueses, pois teve uma etapa inicial constituída pela vida e atividades dos primeiros ocupantes do território brasileiro, os índios.




Cultura e sociedade dos índios do Brasil


Como os índios brasileiros não deixaram monumentos e não possuíam escrita para registrar sua história e mitos, para se compreender essa história utiliza-se principalmente vestígios materiais das sociedades indígenas (cerâmica, machados, utensílios), as pinturas rupestres encontradas em cavernas e os escritos e relatos dos primeiros europeus que escreveram sobre os indígenas que encontraram no Brasil.


A expressão cultural criativa dos índios estava (e está) em grande parte voltada para o adorno pessoal. Há os ornamentos corporais de penas ou de pedras usados na orelhas, boca, nariz.


Os Karajá do vale do rio Araguaia (PA, GO, MT), na puberdade submetem-se à aplicação do omarura, dois círculos tatuados nas faces de tinta do jenipapo com fuligem de carvão. Foto: Vladimir Kozak – Museu Paranaense/s.d.



Em relação à pintura corporal, duas tinturas vegetais são abundantes na maior parte do Brasil e da Amazônia: o vermelho do urucum e o preto do jenipapo. A pintura corporal simboliza identidade para cada determinado grupo, também expressa idéias cosmológicas, mitológicas, assim como para demarcar status social.




Texto e Contexto

“Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas.
Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim nos corpos, como nas pernas, que certo pareciam bem assim.
Também andavam, entre eles, quatro ou cinco mulheres moças, nuas como eles, que não pareciam mal. Entre elas andava uma com uma coxa, do joelho até o quadril, e a nadega, toda tinta daquela tintura preta. (...) e suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas, que nisso não havia vergonha alguma.”
(Carta de Pero Vaz de Caminha dirigida a D. Manuel (Porto Seguro, Ilha de Vera Cruz, 1° de maio de 1500).




Outros ornamentos usados pelos indígenas brasileiros compreendem uma grande variedade de colares, maracás e mascaras para uso cerimonial dos pajés. As máscaras, no contexto mágico religioso, representam figuras de antepassados, espíritos protetores da floresta, da fauna e do ambiente natural.


Há ainda a cerâmica, sendo a argila sua matéria-prima básica de confecção, e os artefatos líticos, isto é, objetos produzidos de pedras como, por exemplo, os machados indígenas. Estes materiais são encontrados freqüentemente em sambaquis (do tupi tamba'kï; literalmente “monte de conchas”), que eram depósitos criados pelos indígenas constituídos por materiais orgânicos, calcários, muitos nos quais enterravam seus mortos e os objetos pessoais dos mesmos. São comuns em todo o litoral do Brasil, de Santa Catarina ao Pará.



Machado de pedra indígena, proveniente de Ilha Bela, SP.


Sambaqui indígena. Jaguaruna, litoral de Santa Catarina.

Durante muito tempo, tornou-se consenso dizer que os índios não têm “fé, nem rei, nem lei”. Essas idéias originaram-se de observações incorretas. Embora os índios não tivessem reis nem hierarquia de classe, efetivamente tinham chefes respeitados; entre os tupis eram os principais ou morubixaba. Tinham leis, não-codificadas, mas aceitas. Também tinham suas crenças, ritos e seus pajés.


O mundo sobrenatural era muito real para os indígenas. Sentiam-se rodeados de espíritos, benéficos ou maléficos, alguns protetores, mas em sua maioria malévolos. A vida tribal estava envolvida numa trama de lendas, mitos, cerimônias e crenças espirituais. Toda tribo tinha pajé para interpretar o mundo sobrenatural e curar por meio de seus poderes especiais. Muitas decisões eram tomadas através da interpretação de presságios ou de adivinhação.


Os pajés eram os intermediários entre a comunidade e o mundo sobrenatural. Eles também dirigiam os rituais, danças e cerimônias grupais, balançando ritmicamente os maracás e seus chocalhos ao bater os pés. A cura se realizava numa nuvem de fumaça de fumo e consistia em sugar os maus espíritos da pessoa enferma.


Os índios praticavam uma agricultura de subsistência diversificada, com o cultivo de mandioca, milho, feijão, abóbora, batata-doce, amendoim, etc. Tecnologicamente, porém, não dispunham de muitos recursos. Praticavam a Coivara, um regime agrícola rudimentar tradicional com a plantação através da derrubada da mata nativa, seguida pela queima da vegetação. Há, então, a plantação intercalada de várias culturas (rotação de culturas), como o arroz, o milho e o feijão. A característica extremamente rudimentar dessa técnica agrícola leva ao rápido esgotamento do solo, fazendo com que as terras precisem ficar em descanso por volta de 3 anos e causando a derrubada de grandes áreas de mata.


A coleta de raízes, frutos silvestres e mel é praticada, em grau maior ou menor, por todas as tribos. A proteína animal vinha da caça e da pesca. Caçavam ou domesticavam alguns mamíferos como a anta que ao lado dos jabotis constituíam as caças preferidas dos indígenas. Não conheciam animais de grande porte para a domesticação, como cavalos, porcos e vacas que seriam introduzidos mais tarde pelos colonos portugueses.





Cultura Tupinambá

Quando os europeus chegaram ao litoral brasileiro, os tupi-guarani estavam estabelecidos ao longo da maior parte da costa. É possível que este grupo indígena tenha provindo dos Andes ou do planalto do médio Paraguai e Paraná e tenham invadido a costa brasileira.


Em um século os Tupi foram expulsos do litoral pela violência, pela fome e pelas doenças. Eram inúmeros os movimentos migratórios forçados e/ou voluntários para o interior – os Tupi fugiam das epidemias, da escravidão, buscavam novos territórios. Dentre os índios tupi-guarani, os mais conhecidos são os Tupinambá.



Texto e Contexto


“Os valentes Tupinambá, gente que das conquistas do Brasil, em terras de Pernambuco, saíram derrotados há muitos anos, fugindo do rigor com que os portugueses os iam subjugando”. (ACUÑA, Pe. Cristóbal de. O “Nuevo descobrimento Del gran rio de lãs Amazonas”, 1641. In: PAPAVERO, Nelson et. al. O Novo Éden... Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi, 2002. 2ª ed. p. 196).




No início do século XVII, os europeus encontraram os Tupinambá no Maranhão, no Pará e na ilha de Tupinambarana, no médio Amazonas. Todos são unânimes em afirmar tratar-se de índios da costa brasileira que emigraram para essas regiões, fugindo do processo colonizador português.


Os Tupinambá organizavam-se em aldeias, compostas por um número variável de malocas – em geral, de quatro a oito – em torno de um pátio central, possuíam, segundo os relatos da época, uma população de quinhentos até 2 ou 3 mil índios.


Cada maloca dentro de uma aldeia tinha um chefe ou “principal”, que era alguém que conseguia reunir em torno de si uma grande parentela. Todo chefe, além de sogro, era um grande matador, e líder de um grupo de guerreiros.




Guerra e Vingança


Os Tupinambá eram extremamente belicosos, isto é, guerreiros. As guerras entre os Tupinambá tinham o objetivo de capturar prisioneiros para a execução e a antropofagia ritual. Os mortos e feridos durante o combate eram devorados no campo de batalha ou durante a retirada; os prisioneiros seguiam com seus algozes, para que as mulheres também os vissem, e pudessem ser mortos. A vingança, assim, era socializada: era necessário que todos se vingassem. A execução ritual, contudo, poderia demorar vários meses.




Texto e Contexto


Em 1639, Pedro Teixeira registrou durante sua famosa expedição pelo rio Amazonas, a belicosidade dos Tupinambá que encontrará na região:


“Havia 120 léguas deste sítio [o estreito de Óbidos] até os Tupinambá; esta nação é de gente mui feroz carniceira e nunca quis conhecer sujeição; por isso vieram fugidos do Brasil rompendo por terra e conquistando grande número de gentios até chegar ao grande rio e sítio onde hoje vivem.”
(De Pedro Teixeira, 1639. In: PAPAVERO, Nelson et. al. O Novo Éden... Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi, 2002. 2ª ed. p. 153).



O objetivo da antropofagia ritual era o desejo de vingar a morte de seus parentes próximos ou os amigos em batalhas. Também há a crença entre os Tupinambás de que comendo o corpo de um guerreiro, adquiririam a sua força e habilidades nas batalhas. Tal ritual chocava profundamente os europeus que o presenciaram; tal choque fora registrado em relatos de viajantes e gravuras da época.



Antropofagia ou canibalismo Tupinambá. A representação do ritual associa-se às imagens do purgatório e a ação demoníaca, no âmbito do imaginário religioso europeu. Theodore De Bry, Grandes Viagens, 1592.


Matar publicamente um inimigo era o evento central da vida social Tupinambá. Levado ao terreiro, pintado e decorado, preso pela mussurana (corda), o cativo esperava seu carrasco que, vestindo seu manto de penas de íbis vermelha (ave pernalta), aproximam-se de sua presa, imitando uma ave de rapina. Recebia a ibirapema (espécie de porrete), das mãos de um velho matador, desferia um golpe concreto contra a nuca do cativo, rompia-lhe o crânio e lançava-o ao chão. De imediato, acudiam as velhas com cabaças para recolher o sangue que se espalhava. Nada deveria ser perdido, tudo precisava ser consumido e todos deviam fazê-lo: as mães besuntavam seus seios de sangue, para que seus bebês também pudessem provar do inimigo.



Manto tupinambá, feito de penas de guará, ibis rubra, hoje em museu na Dinamarca.



Texto e Contexto

Por volta de 1550, um alemão de nome Hans Staden foi aprisionado pelos Tupinambá do Rio de Janeiro. Em seus relatos, registrou o canibalismo tupi, mas fazendo ressaltar seu caráter ritualístico, social e guerreiro:

“Não o fazem por fome, mais por ódio e inveja, e quando combatem na guerra gritam um para o outro: para vingar a morte dos meus amigos, estou aqui; tua carne será hoje, antes que o sol entre, meu assado”.
(De Hans Staden, “Viagem ao Brasil”, 1557.).





O único que não comia era o matador, que iniciava um período de resguardo, no qual deveria se abster de uma série de alimentos e atividades. A antropofagia ritual Tupinambá era seu mais forte elemento social e cultural, que fazia da morte guerreira uma condição da vida social.


Paradoxalmente, porém, esses “carniceiros” foram antes carniça nas guerras de conquista dos colonizadores, em suas bandeiras e suas missões. Em menos de dois séculos, os numerosos Tupi foram varridos da costa brasileira – aqueles que não sucumbiram à violência, às epidemias e à fome fugiram para o interior.



Índios da Amazônia

A bacia amazônica foi palco das culturas indígenas mais sofisticadas antes da conquista. A expressão cultural mais importante dos indígenas da Amazônia é a cerâmica desenterrada na Ilha de Marajó na foz do Amazonas e em Santarém, no rio Tapajós, sendo as evidências de sociedades indígenas mais avançadas existentes no Brasil.





As primeiras populações que habitaram a Ilha do Marajó viviam de forma simples, com organização social baseada no trabalho doméstico e familiar. Dedicavam-se à caça, à pesca, à coleta de produtos da floresta e à horticultura. Cerâmica, tecidos e outros objetos eram produzidos para a família e para eventuais trocas com outros grupos.




Igaçaba Marajoara. Museu do Encontro, Forte do Presépio. Belém-PA.



Os povos que viveram na Ilha do Marajó entre 1.500 anos a.C. até o século XVIII produziam cerâmica em estilos diversos. A cerâmica marajoara demonstrava grande valor como objeto artístico e veículo de comunicação social e cultural. Desenhos geométricos e figuras humanas e de animais podem ser observados na decoração.


A produção da cerâmica se concentrava no trabalho das mulheres das tribos, responsáveis por todo o processo, da escolha da argila à modelagem, da queima das peças à pintura dos objetos.


Dentre as peças cerâmicas mais famosas estão as igaçabas, urnas destinadas à guarda de ossos dos mortos em cerimônias funerárias. Há ainda as estatuetas, muitas utilizadas pelos pajés em rituais como maracás, e as tangas de cerâmica, usadas por mulheres em cerimônias e ritos de passagem.


O principal grupo indígena que habitava a região do rio Tapajós, no Estado do Pará, chamava-se Tapajó, habitando a região pelo menos desde o século X até o XVII. Sua principal aldeia estava situada na foz do rio Tapajós, local atual do bairro de Aldeia, na cidade de Santarém.



Os relatos históricos informam que os Tapajó estavam organizados em aldeias com 20 a 30 famílias, vivendo juntas em casas coletivas. Os grupos familiares possuíam lideres (chefes), a quem deviam obediência.


A cerâmica indígena tipicamente de Santarém da cultura cerâmica tapajônica apresentam regularmente a representação de figuras humanas e animais. Os objetos mais significativos da cerâmica de Santarém são os vasos de cariátides, os vasos de gargalo, estatuetas e cachimbos.


Vaso de Cariátide. Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém-PA.




Os vasos de cariátides apresentam curiosamente pequenas figuras modeladas que sustentam uma vasilha sobre suas cabeças. Esses vasos e os de gargalo apresentam em sua estrutura decorações com figuras humanas ou animais, como urubus, antas, macacos e pequenos batráquios. As estatuetas, em sua maioria, representam formas humanas, sobretudo femininas.


Além de sua sofisticada cerâmica, os índios Tapajó tem como maior expressão de sua criatividade os Muiraquitãs, que são considerados os elementos de cultura material indígena mais sofisticado do Brasil.


Muiraquitã. Museu Paraense Emílio Goeldi. Belém-PA.




Os Muiraquitãs, também chamados de “Pedras das Amazonas”, eram adornos produzidos de pedras verdes (jadeíta, amazonita) em forma de batráquio, possivelmente utilizados como protetores contra doenças e mordedura de animais peçonhentos, assim como elemento para o aumento da fertilidade feminina e como figura mitológica astral. Na Amazônia, os muiraquitãs foram encontrados com maior freqüência nos vales dos rios Tapajós, Trombetas e Nhamundá.




Índios aldeados, escravos e resgatados


Para o Estado português, a prioridade era assegurar a participação dos indígenas nas atividades produtivas e sua colaboração na defesa do território. Isso determinou a adoção de diversas medidas legais em relação aos indígenas e o uso de sua força de trabalho.


A liberdade era garantida para os índios aldeados e aliados, ou seja, os que viviam nos aldeamentos e foram convertidos e aculturados. Livres, eram senhores de suas terras nas aldeias, passíveis de serem requisitados para trabalharem para os moradores mediante pagamento de salário.


Esses índios aldeados e aliados eram recrutados pelas “tropas de descimentos”, ou seja, eram “descidos”, isto é, trazidos de suas tribos do interior (“sertão”) para junto das povoações portuguesas, onde eram catequizados e “civilizados”, de modo a tornarem-se úteis a Coroa. Deles dependia o sustento dos moradores e a defesa da colônia.




Texto e contexto

“Eu, El-Rei, recomendo aos Padres Jesuítas que penetrem tanto quanto possível nos sertões e façam neles igrejas para cultivar os índios na fé e para que vivam com a decência cristã e deixem seus bárbaros costumes.”
(Provisão Régia de 1680).




Para o “descimento”, havia a obrigatoriedade da presença de missionários junto às tropas, já que o principal objetivo dos descimentos era a conversão. O método usado para trazer os índios para aldeias próximas às povoações coloniais era a persuasão, ou seja, tratava-se de convencer os índios de que era interessante aldear-se junto aos portugueses, para sua própria proteção. Nas aldeias deviam viver índios e missionários, estes últimos, sobretudo padres jesuítas, administravam as aldeias e promoviam a catequese, isto é, o ensino da religião católica.


O aldeamento era um projeto da colonização portuguesa para garantir a conversão dos índios ao catolicismo, a ocupação do território, sua defesa e ainda servia como uma reserva d mão-de-obra para o desenvolvimento da colônia.


A repartição da mão-de-obra era estabelecida pela “terça parte”: um terço permanecia na aldeia, um terço servia à Coroa (guerras, descimentos), o restante era repartido entre os moradores, para atividades remuneradas.


Para a escravização dos indígenas, havia duas possibilidades: a guerra justa e o resgate. O principal caso de escravização legal era a guerra justa.


As causas legítimas para a realização de uma guerra justa seriam a recusa à conversão, a prática de hostilidades contra os portugueses e a quebra de pactos celebrados. O impedimento à pregação era apontada como causa justificada de guerra, para punir e castigar aqueles que punham obstáculo à propagação da fé cristã. As hostilidades das tribos também eram causas das guerras justas. Era então estabelecida a hostilidade, a guerra devia destruir as aldeias inimigas, matando ou escravizando a todos a quem de algum modo resistir.


Também podiam ser escravos os índios resgatados, que não eram inimigos, mas que eram cativos ou escravos de outros índios e que fossem comprados ou “resgatados”, para serem salvos. Contudo, o cativeiro através do resgate não era ilimitado, havia tempo definido para manter o índio como cativo, geralmente dez anos para que fiquem livres.


O escambo de pau-brasil, intensamente praticado no litoral, foi a primeira atividade importante onde se utilizou a mão-de-obra indígena. Na região amazônica, o uso da força de trabalho dos índios era importante, pois estes conheciam e região, sendo utilizados na navegação nos rios, na orientação na mata, assim como no trabalho na floresta, na extração das chamadas “drogas-do-sertão”.


Em 1757, foi instituída a Lei do Diretório dos Índios que tiraria a tutela dos indígenas dos padres, passando a administração dos aldeamentos para dirigentes civis, tal lei estabelecia: a substituição dos religiosos missionários por diretores civis leigos nas aldeias; a obrigação do uso da língua portuguesa nas aldeias e vilas, com a proibição do uso da “língua geral”; a autorização da presença de brancos colonos nas aldeias, que podiam viver agora no povoado indígena; o incentivo ao casamento entre os indígenas e os colonos brancos.


A Lei do Diretório tinha a intenção de tornar os indígenas cada vez mais úteis ao processo colonizador, tornando-os em homens livres e colonos tendo como um dos seus objetivos efetivar a ocupação e a defesa do território brasileiro, sobretudo na região amazônica, alvo principal da reforma indigenista pombalina.


Como solução econômica, a escravidão indígena fracassou na maior parte do território colonial brasileiro. Não pela indolência, mas sim pela resistência dos índios ao cativeiro e a um regime de trabalho para eles opressivo, estranho e sem sentido. Mas o uso da força de trabalho indígena teria importância em outras áreas coloniais, como, por exemplo, na Amazônia e em São Paulo.




Os nativos sob o olhar europeu



Os europeus deixaram sua visão inicial do Novo Mundo e seus ocupantes registrada em vários textos escritos, gravuras, desenhos, etc. Essa visão apresenta sentimentos contraditórios de encanto e estranhamento. Mas, à medida que os interesses da conquista impuseram sua força, definindo objetivos econômicos e estratégias políticas de ocupação do território, a visão dos europeus passou logo da estranheza para a desconfiança, da atração para a rejeição.


Dados à poligamia, canibalismo, idolatria e outros “vícios”, os indígenas, de seres “diferentes”, passaram à condição de seres inferiores. De “bons selvagens”, foram reduzidos a selvagens simplesmente, ou a “bárbaros”, à medida que aumentaram sua resistência ao avanço da conquista colonial.



Texto e Contexto


“Os Índios moradores d’este rio tem grandissimas superstições, como os Engaibas, ainda q’ nenhum d’elles adora a couza algûa. Sam bárbaros, grandes comedores de carne humana, traidores em estremo, os mais delles se prezam de feiticeiros, e q’ falam com o Diabo, dam a entender a os demais q’ o Diabo gosta de algûas couzas, as quais todas executam e guardam inviolavelmente, mais por temor a outra couza.”
(De Mauricio de Heriarte, em 1639, sobre os índios do rio Tocantins. HERIARTE, Mauricio de. A “Descriçam do Estado do Maranham, Para, Corupa, Rio das Amazonas” (1662). In: PAPAVERO, Nelson et. al. O Novo Éden... Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi, 2002. 2ª ed. p. 252.)




Para justificar a pilhagem e submissão de povos inteiros e a morte de milhões de índios na América, os europeus não hesitaram em atribuir caráter diabólico a muitos dos rituais indígenas e acusar os nativos de serem agentes do demônio e inimigos da cristandade. Trouxeram para o Novo Mundo a velha intolerância religiosa e o sentimento de superioridade do europeu sobre povos considerados “atrasados” ou “primitivos”.


A noção de exotismo domina a representação do índio no motivo do selvagem bárbaro, cruel, antropófago, ou o seu contrário, o homem em estado natural, o “bom selvagem”.




Texto e Contexto

“No Novo Mundo, depois da chegada dos padres, há duas igrejas: uma boa e católica, chefiada por Roma, e outra diabólica, dirigida pelas hostes de Satã.”
(Do padre espanhol Andrés de Olmos, por volta de 1550, sobre o cenário da luta espiritual na América).




O olhar europeu em gravuras e relatos coloca-se, assim, a serviço da legitimação moral de assuntos profanos, bem como dos dogmas cristãos.


O índio não-cristão apresenta-se nu para ser catequizado ou civilizado; o indígena, com maracás, ídolos em seus rituais, devia ser convertido. São, desta forma, sempre pensados e representados de acordo com os objetivos europeus de exploração e catequese. Tal visão extraída do caleidoscópio eurocêntrico justificava a presença ocidental em terra americana.


Com a colonização, os nativos da América portuguesa tinham duas escolhas: submeter-se ou resistir. No plano social e político, isso significada aderir a uma sociedade não-igualitária e hierarquizada, ou opor-se a ela. No plano cultural, implicava em preservar ou abandonar as tradições, crenças e costumes, pelos valores da sociedade européia cristã.




Texto e Contexto


“Não se pode esperar nem conseguir nada em toda esta terra na conversão dos gentios, sem virem para cá muitos cristãos, que conformando-se a si e a suas vidas com a vontade de Deus, sujeitem os índios ao jugo da escravidão e os obriguem a acolher-se à bandeira de Cristo.”
(De José de Anchieta, em meados do século XVI, sobre a necessidade de submeter os nativos para convertê-los).




Alguns povos não tiveram escolha senão deixar-se catequizar e colocar-se sob o abrigo das ordens religiosas para escapar da escravidão ou ao extermínio imposto pelos colonizadores. Outros empreenderam lutas em defesa de sua autonomia, como na Guerra Guaranítica (1753-1756), empreendida pelos índios guaranis no século XVIII contra a imposição do governo para que os indígenas guaranis que habitavam a região do rio da Prata deixassem seu território durante a demarcação dos limites do território brasileiro imposto pelo Tratado de Madri (1750).




Texto e Contexto

Resistência Indígena no Brasil


Guerra ou Confederação dos Tamoios (1555-1567): ocorre no Rio de Janeiro e São Paulo. Os Tupinambá se aliam aos Carijó, Tupinikins e franceses, reúnem 180 canoas, num assalto matam Fernão, filho de Mem de Sá.

Guerra dos Aimoré (1555-1673): os Aimoré, povo Jê, atingem Ilhéus, BA, atacando até o Recôncavo.

Levante dos Tupinambá (1619): atacam Belém, PA, sob o comando do chefe Guaimiaba (Cabelo de Velha).

Guerra dos Manau (1723-1728): os índios Manau liderados por Ajuricaba impedem qualquer barco luso subir o rio Negro de 1723 até 1728.



Outros grupos optavam por fugir para regiões distantes dos núcleos coloniais. Entre esses, após a chegada dos portugueses no século XVI, um grupo numeroso de Tupinambás retiraram-se do litoral para a Amazônia, a procura do que eles chamavam de “terra sem males”.






Texto Complementar


Justiça Federal ordena retirada de madeireira e grileiros da Terra Indígena Apyterewa no Pará, 15 de maio de 2005.

A desembargadora federal Selene Maria de Almeida ordenou a retirada da madeireira Peracchi e de grileiros que ocupam áreas na Terra Indígena Apyterewa, localizada no estado do Pará. Áreas conhecidas como o "Paredão" e o "Pé de Morro" devem ser desocupadas pelos invasores, segundo a decisão da Justiça para a ação civil pública movida pela Funai - Fundação Nacional do Índio e pelo Ministério Público Federal. A TI Apyterewa está localizada nos municípios de Altamira e São Félix do Xingu. Nos últimos anos, a área foi palco da ação de madeireiros e grileiros, que retiraram madeira e outros recursos naturais de maneira ilegal. Em 2003 a TI Apyterewa foi a área indígena recordista em desmatamento na Amazônia brasileira. Além de devastar as florestas, os invasores têm impedido que a Funai realize o trabalho de demarcação da terra indígena, inclusive ameaçando servidores e indígenas residentes no local. A delimitação da área foi objeto de disputa durante anos e já teve inclusive seu tamanho diminuído. Em 2004, portaria do Ministério da Justiça assegurou a posse da área para o grupo indígena Parakanã, delimitando a área e determinando à Funai que procedesse a demarcação. (Maurício Araújo/ Amazônia.org)
(Acessado em: http://www.ambientebrasil.com.br/noticias/index.php3?action=ler&id=19138)




Hidrovia Tocantins-Araguaia ameaça índios


Mais de quarenta lideranças indígenas dos povos Apinajé, Xavante, Xerente, Tapirapé, Krikati, Krahô, Javaé e Karajá estiveram reunidos, no dia 10 de março em São Felix do Araguaia, MT, para enfrentar juntos uma grande ameaça: a hidrovia Tocantins-Araguaia. Um projeto concebido nos anos 80 pelo governo brasileiro e a Organização dos Estados Americanos (OEA), a fim de implementar no interior do país uma via fluvial industrial.


A execução dessa hidrovia acarretará destruição de ecossistemas importantes e perda da biodiversidade da região. (...) Cerca de 10 mil indígenas serão prejudicados pela hidrovia. O governo ofereceu aos índios compensações em dinheiro, mas eles rejeitaram a oferta, propondo como alternativa de transporte para a região a conclusão da rodovia BR-158, a Ferronorte e a ferrovia Norte-Sul.
(Adaptado de Porantim, março/abril, 1999. p. 6.)



Referências

CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras: Secretaria Municipal de Cultura: FAPESP, 1992.

DEL PRIORE, Mary Lucy Murray. Retrato da América quando jovem: imagens e representações sobre o Novo Continente entre os séculos XVI e XVII. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 9, 1992.

GRUPIONI, Luís Donizete Benzi (org.). Índios no Brasil. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 1992.

PAPAVERO, Nelson et. al. O Novo Éden... Belém: Museu Paraense Emilio Goeldi, 2002. 2ª ed.

6 comentários:

  1. otimo vç e muito bom professor ta de parabens

    ResponderExcluir
  2. agora eu queria saber sob a primeira missa no brasil manda ai o que vç achar pra mim viu

    ResponderExcluir
  3. valeu mesmo, ajudou BASTANTE no trabalho, bom mesmo.

    ResponderExcluir
  4. Bom texto. Pelo menos, hoje, os índios têm suas terras demarcadas, principalmente, na Amazônia e vivem dela. A FUNAI descobriu índios que ainda não tiveram contato com os brancos vivendo na Amazônia e determinou que eles não sejam contactados que é para preservar sua cultura, saúde e dignidade. Muito Legal.

    ResponderExcluir